Computação Inspirada na Natureza: WTF? – Parte 1

Ou Computação Inspirada na Natureza: Inspirando nossos algoritmos na Natureza (ou no que achamos que ela é). Isso da certo, campeão?

Antes de viajar, vamos para o que é realmente ciência:

A Computação Inspirada na Natureza (CIN) é um ramo da computação que pretende se inspirar em situações naturais para criar algoritmos ou técnicas para se resolver problemas (oohh, que explicação ótima). A CIN agrega a Computação Bioinspirada (CB), que se inspira em processos da vida para se criar algoritmos e, também agrega outros algoritmos inspirados em coisas da natureza que não são necessariamente vivas.

Dentre as diversas e crescentes áreas de pesquisa da CIN, existem duas áreas que considero muito interessantes: Computação Evolutiva (CE) e Inteligência de Enxames (IE). Pela CE, a técnica mais conhecida muito por certamente são os Algoritmos Genéticos (AG). Tanto os AGs quanto todos as outras técnicas dentro da CE são baseadas nas teorias de Seleção Natural e Evolução Natural de Darwin.

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Existem outras técnicas mais ou menos bioinspiradas, como as Redes Neurais, mas eu as ignorarei aqui porque sou gostoso.

E para os criacionistas, que acham que a idéia de Evolução e Seleção Natural são furadas, fikdik (na medida em que as situações são semelhantes): esses algoritmos funcionam, seus danadinhos. E FUNCIONAM BEM (para boa parte dos problemas). É claro que o fato deles funcionarem não prova que a Evolução Natural é um fato científico (exceto pelo fato de que ela realmente aconteceu e todo mundo sabe né). Mas, pelo menos, nos dá uma boa dica de que pelo menos o processo descrito por Darwin eventualmente faz sentido (pelo menos nessas situações).

Eu não vou tentar explicar agora como esses algoritmos funcionam ou no que eles se baseiam. Vou deixar isso mais para frente. O ponto principal totalmente filosófico e sexy que quero falar agora para vocês é outro; agora que eu já contei pra vocês várias mentiras, vamos a ele:

Técnicas e algoritmos inspirados na natureza que funcionam nela também podem funcionar em outros ambientes (como os artificiais criados em um computador); técnicas e algoritmos inspirados em coisas ridículas (como a homeopatia) não funcionam em lugar nenhum.


Não sei se eu fui claro, mas o ponto que quero mostrar é esse: apesar da infeliz crença popular de que a Seleção Natural nunca aconteceu e de que homeopatia é joinha, se você “transforma” ambos para algoritmos computacionais, a CE se dá bem e a homeopatia deve continuar funcionando tanto quanto a Fundação Cacique Cobra D’água evitou enchentes no Rio.

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Diagrama da metodologia científica dos defensores de idéias cientificamente furadas e cheias de dogmas. Fonte: http://www.atheistcartoons.com/?p=336

Veja bem, eu disse “deve” no parágrafo anterior por um motivo simples: não conheço ninguém louco o suficiente que já tenha tentado inspirar algo na computação a partir da homeopatia. Como seria um algoritmo computacional homeopático? Um algoritmo que, para organizar um vetor de inteiros, desorganiza só um pouquinho até ele ficar organizado? Isso não fez sentido nem em um mundo onde as coisas que não fazem sentido, fazem sentido.

Veja que, a idéia aqui é que se o negócio funciona na natureza, há uma chance dele funcionar em um ambiente “semelhante” (salvo as devidas proporções). Você pode, pode exemplo, simular uma pressão evolutiva em um algoritmo computacional para que ele chegue a boas soluções (juro que falo disso futuramente); ou então, se inspirar em como as bactérias encontram sua fonte de alimento e fazer um paralelo computacional. Mas dificilmente você vai conseguir trazer a idéia de eXtreme Programming (XP) para a natureza para provar que XP é uma boa metodologia de desenvolvimento (a não ser que você tenha dois deuses para pô-los em um laboratório e espera-los programarem o universo de forma satisfatória).

Então, tomemos cuidado nas inferências PORQUE ISSO É COISA DO CANHOTO DIABO SATANÁS.

Enfim. Toda essa discussão é só para iniciar uma série de posts que pretendo fazer sobre a CIN, já que esse assunto é bastante fascinante mas parece que as pessoas só gostam de falar do iPhone 4. Nos próximos posts, vou falar sobre três assuntos para corroborar a minha falaciosa afirmação e introduzir partes da CIN; vou abordar (em desordem): Computação Evolutiva, Inteligência de Enxames e homeopatia®.

Fiquem ligadinhos :~

EDIT:

O Fabrício me corrigiu nos comentários. Eu estava tratando Computação Natural como Computação Inspirada na Natureza, o que não é muito ortodoxo, para não dizer ridiculamente errado. A não ser que eu tenha feito alguma cagada na hora de corrigir, agora deve estar certo.

Francisco de Souza Junior

Se formou em 2008 e poderia estar ganhando muito dinheiro. Só que optou pela vida acadêmica e agora é doutorando em Ciências de Computação no Laboratório de Robótica Móvel do ICMC-USP. Em outras palavras, é um cara que tinha tudo para dar certo na vida mas que escolheu o caminho errado.

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  • http://www.skooterblog.com Fabricio

    O livro de Computação Natural do Leandro Nunes Castro é dividido em três partes:
    1) Computação Inspirada pela Natureza
    2) Simulação e Emulação de Fenômenos Naturais no Computador
    3) Computação com Novos Materiais Naturais (computação com DNA, computação quantica, etc.)

    Não sei se a classificação dele é a mais adotada, mas se for, Computação Natural é algo que engloba mais que apenas Computação Bioinspirada. Por outro lado, o nome Computação Inspirada pela Natureza resolve o problema de englobar também os algoritmos inspirados em processos naturais.

    • http://chico.net.br Francisco de Souza Junior

      Com “Computação Natural”, eu me referia a “Computação Inspirada pela Natureza”. Dei uma pesquisada e as definições que vi batem com a sua. Vou corrigir assim que der. :)

  • http://www.skooterblog.com Fabricio

    E só pra contrariar, um algoritmo baseado no criacionismo funciona. Suponha um problema de otimização. O criador conhece a solução ótima porque ele é onisciente, portanto em vez de ficar otimizando ele simplesmente atribui o valor correto. :)

    • http://chico.net.br Francisco de Souza Junior

      Você não contraria porque eu concordo. Mas, como eu disse, isso só dá uma dica de que o processo de “um ser ‘superior’ criar um ser ‘inferior’” faz sentido. Não diz nada em relação ao criacionismo em si assim como AEs não dizem nada sobre a Evolução Natural em si. Apenas, no máximo, dão uma “dica” sobre seus processos.

      • http://www.skooterblog.com Fabricio

        Eu concordo, mas a minha idéia era mostrar que essas dicas podem ser furadas, os algoritmos diferem muito do processo real. Exemplos: eu não acredito que a evolução ocorreu simplesmente com crossover e mutação, devem haver mais mecanismos ainda desconhecidos. Os algoritmos, por sua vez, não funcionariam tão bem se seguissem fielmente a natureza: o elitismo no algoritmo genético não existe na natureza, a evaporação dos feromônios das formigas parece insignificante no mundo real, os aviões não voam batendo as asas, etc. Minha conclusão é que não duvido que apareça um algoritmo homeopaticamente inspirado.

        Aliás, viajando mais um pouco: uma boa prova de que homeopatia não funciona é que em testes ela funciona tão bem quanto os placebos, certo? Então usando seu exemplo do vetor, se a bagunçadinha for aleatória, eventualmente após muitas muitas muitas iterações conseguiremos um vetor ordenado, o que nunca acontecerá se ficarmos simplesmente olhando pro vetor (efeito placebo) sem fazer nada :)

        • http://gaigalas.net Alexandre Gaigalas

          A homeopatia dilui um princípio ativo várias e várias vezes. Pegue milhões de instruções noop e dilua apenas uma única instrução que dá uma “bagunçadinha” no vetor. Depois retire uma amostra e dilua o resultado disso com mais um monte de noops, e assim por diante. Se você mantiver a mesma proporção de diluições de um remédio homeopático, as chances da amostra final ser formada somente de noops é quase 100%.

          Tanto a homeopatia no mundo real quanto a homeopatia aplicada ao exemplo do vetor não fazem o mínimo sentido e as chances de fazer um mínimo efeito são praticamente nulas…

          • http://www.skooterblog.com Fabricio

            Assim realmente não funciona. Mas pra ser inspirado na homeopatia do ponto de vista favorável a ela teríamos de fazer os no-ops “lebrarem” das instruções de bagunçadinha com que tiveram contato :)

        • http://chico.net.br Francisco de Souza Junior

          Veja que eu tive cuidado em até não utilizar a palavra “evidência” em todo o texto, ao invés, falei em “dica”. Com “dica”, eu quis exatamente dizer que a relação entre as duas coisas é bem difícil de se medir pelos exemplos dados. Fiz até questão de falar pra tomar cuidado com essas inferências, que eram coisas do canhoto belzebú!

          Não vejo como as melhorias não bioinspiradas dos algoritmos, como elitismo, diferentes parâmetros de feromônios para formigas etc invalidam uma possível comparação. Basta não compara-los com essas melhorias. :P . Mas eu entendo seu ponto: quanto mais distantes os algoritmos ficam da inspiração real, mais difícil é dizer o quanto essa relação é relevante. E eu concordo. Mas ainda que seja muito difícil dizer se essa relação é relevante ou o quanto ela é relevante, ainda é possível estudá-la, desde que se tenha todo cuidado possível.

          Quanto a homeopatia: não acho que se trate de fazer algo favorável a ela ou não, e sim fazer um algoritmo que pode ser comparado a ela. E o seu exemplo de ordenação homeopática não me parece homeopaticamente inspirado, ele me parece mais o BogoSort. :P

          A minha também não é muito justa, mas a minha é zoeira mesmo. :P

          • http://www.skooterblog.com Fabricio

            Só uma observação: quando eu falei em um “algoritmo do ponto de vista favorável à homeopatia”, eu não quis dizer um algoritmo que dê suporte à homeopatia, mas sim um algoritmo inspirado na homeopatia como os homeopatas a enxergam.

          • http://chico.net.br Francisco de Souza Junior

            Saquei. Nesse caso eu concordo. E é a base do meu ponto: como essa bizarrice de memória da água é uma bizarrice que poucos deles arriscam a dizer como funciona, fica difícil traduzir isso para um algoritmo. :P .

    • http://twitter.com/daustachris Daust Achris

      Daí ele ganha ban porque é cheater.

  • http://temnao Vinicius

    Certa vez eu vi uma explicação sobre o funcionamento da homeopatia. Não concordo nem discordo. Apenas desconheço, do mesmo modo que física quântica ainda é considerada ‘magia negra’ por alguns. O sujeito dizia mais ou menos o seguinte:

    “Quem acha que a homeopatia funciona ou não funciona por causa da diluição do ativo diversas vezes é um pangaré com cérebro de ameba. Nunca estudou homeopatia e fica por aí disseminando m$%#@$ pra tentar justificar a própria estupidez ou falta de conhecimento.

    Como o nosso organismo absorve água com facilidade, podendo rejeitar componentes contidos no ativo, torna-se necessário ‘enganar’ o organismo, para que perceba o ativo como sendo água. Para tal, em resumo, o funcionamento da homeopatia ocorre pela transferência de propriedades químicas e físicas do ativo para a água, que é então absorvida pelo organismo.”

    Acredito que do mesmo modo que é impossível recarregar uma bateria sem ligá-la na tomada, é impossível transferir as propriedades do ativo para a água.

    Ih, caramba: Palm Pre’s Amazing Wireless Touchstone Charger
    http://gizmodo.com/5126600/palm-pres-amazing-wireless-touchstone-charger

    • http://chico.net.br Francisco de Souza Junior

      Pois é, exceto pelo fato de que se isso fosse verdade, revolucionaria toda química que conhecemos hoje! :P

  • http://twitter.com/naando_araujo_ Fernando

    Eu tb não entendo muito de homeopatia, mas pelo q li por enquanto, se a agua tiver memória tomare q não seja rancorosa.. hehehehehehe

    Ótimo blog! Parabéns!!

  • http://twitter.com/daustachris Daust Achris

    “Então, tomemos cuidado nas inferências PORQUE ISSO É COISA DO CANHOTO DIABO SATANÁS.” = QCQ + Dr. Pepper.
    Mas concordo.

    TA FUNCIONANDO AQUELA PORRA DE POLÍTICA DE COMENTÁRIOS AINDA?