Sempre vejo gente reclamando que seu curso de Ciência[s] da[e] Computação (CCP, pros macho) não estava preparando-o para o mercado de trabalho, pois as tecnologias que aprendiam no curso não eram utilizadas no emprego. Por exemplo, muita gente reclamava estar aprendendo Pascal no primeiro ano quando o que estava bombando nas empresas era o Java.
Eu pensava: – pooooooooooooooooxa, tentar se preparar para o mercado de trabalho com curso de ciências não dá. E o argumento padrão contra esse tipo de comentário é: – você aprende conceitos e não tecnologias. O problema é que, apesar de eu concordar com esse argumento, talvez ele esteja refutando a coisa errada (ou esteja refutando apenas parcialmente a coisa certa).
Uma pequena nota antes de continuar: antes que você, leitor lindo deste singelo site, pense que eu vou tentar te convencer a frequentar um curso de Ciências da Computação, saiba que meu intuito é diferente. Eu quero é justamente tentar te convencer a não cursar essa graduação. Ou quase isso.
Longe de eu querer dar um aval global sobre todas as críticas de todos os alunos sobre todos os cursos que este cursaram nesse Brasilzão lindo de dar dó, mas, na minha humilde opinião, muitas dessas críticas estão simplesmente equivocadas no que tangem ao que deve se esperar de um curso de CCP.
Para dizer isso, me baseio primordialmente no próprio nome do curso: Ciência[s] da[e] Computação. Para ajudar a explicar meu ponto, uma pequena enquete: na opinião de vocês, um curso de CCP tem em sua grade disciplinas primordialmente relacionadas à:
- Tecnologias de Mercado?
- Oportunidades de emprego?
- Homens nús?
- Diferentes tipos de nós de gravatas?
- NaN
- Nada, pois a faculdade é apenas um mercadinho imoral de diplomas?
- Fundamentação da parte científica da computação?
Se você respondeu a questão 6 7 você deve estar certo! Pelo menos na opinião da SBC (ou da minha interpretação dela).
Em cursos de CCP, você aprenderá fundamentalmente a parte científica da computação e, para isso, você precisará de outros fundamentos para essa parte científica. E é aí que entram as disciplinas matemáticas que muita gente odeia. Note que isso não significa que as grades de CCP devem ignorar a tecnologia atual até porque isso seria burrice.
A SBC, no documento linkado, ainda, faz uma distinção interessante: cursos de computação como atividade-fim e cursos de computação como atividade-meio. E isso é importantississímo, principalmente quando estamos falando do mercado.
A computação é para a sociedade, em sua essência, uma ferramenta. Ela é utilizada com esse fim pelas empresas, na maioria das vezes. Os softwares que você provavelmente desenvolve para a sua empresa não são softwares soberanos que existem por existir e são auto-suficientes e ponto final falow vlwww. Você provavelmente cria softwares para resolver problemas do mundo real, como os ERPs, que são, a grosso modo, criados para gerenciar uma empresa.
Veja só: você, na verdade, está resolvendo o problema de uma empresa, e para isso está usando a programação. A programação e a computação ai são as ferramentas (atividade-meio) utilizadas para resolver o problema da empresa (atividade-fim).
Cursos em CCP são, em sua definição, cursos de atividade-fim. Você faz CCP para estudar a própria Computação e poder contribuir dentro da Computação. É claro que o conhecimento adquirido pode (e vai) te ajudar a desenvolver uma solução para uma empresa e utilizar a computação como atividade-meio, mas esse não é o intuito dos cursos.
Então, quando você estiver naquela aula de redes de computadores do seu curso de CCP, puto da vida por estar aprendendo o modelo de camadas ISO/OSI e não como fazer um webservice, não diga: – “que merda inútil da porra vtnc”, mas se pergunte: – “Será que eu realmente quero fazer um curso de CCP ou eu quero fazer um curso técnico em Java com webservices para eu ser mais tecnologicamente útil para minha empresa?”.
Sério, eu sei que Ciência[s] da[e] Computação é um nome imponente e parece reunir todo conhecimento computacional do mundo em 5 anos de aulas noturnas, mas, aí é que está: isso não é verdade para caso nenhum! Não é simplesmente o ~~seu~~ curso que é “ruim”, é que provavelmente todos os cursos são assim. As pessoas que cursam Biologia, saem da faculdade biólogos. As pessoas que cursam Medicina, saem da faculdade médicos (ou quase). Então porque você, que cursa CCP, acha que deveria sair da faculdade um programador e não um cientista da computação?
E isso tudo pode parecer ser uma péssima notícia para você que discorda de mim e está cursando CCP, mas há sempre uma boa notícia no final: em tese, você não precisa cursar CCP para trabalhar! Existem outros cursos “mais tecnológicos” de computação que definitivamente podem te ajudar a melhor se adaptar a tecnologia de sua preferência.
Na minha opinião, essa visão errada de um curso de CCP se dá ao fato de que a ciência é ~~LoKa~~ e todo mundo fala mal + paga 1 pal pra ela. Assim, acha-se que só um curso com ~~Ciência~~ no nome é bom (ou pelo menos é melhor), quando isso é um equívoco (essa visão também afeta as pseudo-ciências).
Enfim. Ainda há espaço para discussão. Eu poderia argumentar que as disciplinas de um curso de CCP são úteis independente da forma que você utiliza a computação (e eu vou no futuro); você poderia dizer que nem só de ciência vivem os cursos de CCP etc. mas esse não é o escopo desse post. Você pode dizer que saber a fundamentação científica não é importante; o que eu discordo, mas acredito no seu direito de escolher o que deve ser mais importante para sua qualificação profissional. O ponto é: se o seu curso de CCP não é útil para a sua função na sua empresa, talvez não seja o curso de CCP que é ruim, e sim você que está esperando a coisa errada do curso.

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