Ciência da Computação e o mercado de trabalho #1

Sempre vejo gente reclamando que seu curso de Ciência[s] da[e] Computação (CCP, pros macho) não estava preparando-o para o mercado de trabalho, pois as tecnologias que aprendiam no curso não eram utilizadas no emprego. Por exemplo, muita gente reclamava estar aprendendo Pascal no primeiro ano quando o que estava bombando nas empresas era o Java.

Eu pensava: – pooooooooooooooooxa, tentar se preparar para o mercado de trabalho com curso de ciências não dá. E o argumento padrão contra esse tipo de comentário é: – você aprende conceitos e não tecnologias. O problema é que, apesar de eu concordar com esse argumento, talvez ele esteja refutando a coisa errada (ou esteja refutando apenas parcialmente a coisa certa).

Uma pequena nota antes de continuar: antes que você, leitor lindo deste singelo site, pense que eu vou tentar te convencer a frequentar um curso de Ciências da Computação, saiba que meu intuito é diferente. Eu quero é justamente tentar te convencer a não cursar essa graduação. Ou quase isso.

Longe de eu querer dar um aval global sobre todas as críticas de todos os alunos sobre todos os cursos que este cursaram nesse Brasilzão lindo de dar dó, mas, na minha humilde opinião, muitas dessas críticas estão simplesmente equivocadas no que tangem ao que deve se esperar de um curso de CCP.

Para dizer isso, me baseio primordialmente no próprio nome do curso: Ciência[s] da[e] Computação. Para ajudar a explicar meu ponto, uma pequena enquete: na opinião de vocês, um curso de CCP tem em sua grade disciplinas primordialmente relacionadas à:

  1. Tecnologias de Mercado?
  2. Oportunidades de emprego?
  3. Homens nús?
  4. Diferentes tipos de nós de gravatas?
  5. NaN
  6. Nada, pois a faculdade é apenas um mercadinho imoral de diplomas?
  7. Fundamentação da parte científica da computação?

Se você respondeu a questão 6 7 você deve estar certo! Pelo menos na opinião da SBC (ou da minha interpretação dela).

oi

pura vdd

Em cursos de CCP, você aprenderá fundamentalmente a parte científica da computação e, para isso, você precisará de outros fundamentos para essa parte científica. E é aí que entram as disciplinas matemáticas que muita gente odeia. Note que isso não significa que as grades de CCP devem ignorar a tecnologia atual até porque isso seria burrice.

A SBC, no documento linkado, ainda, faz uma distinção interessante: cursos de computação como atividade-fim e cursos de computação como atividade-meio. E isso é importantississímo, principalmente quando estamos falando do mercado.

A computação é para a sociedade, em sua essência, uma ferramenta. Ela é utilizada com esse fim pelas empresas, na maioria das vezes. Os softwares que você provavelmente desenvolve para a sua empresa não são softwares soberanos que existem por existir e são auto-suficientes e ponto final falow vlwww. Você provavelmente cria softwares para resolver problemas do mundo real, como os ERPs, que são, a grosso modo, criados para gerenciar uma empresa.

Veja só: você, na verdade, está resolvendo o problema de uma empresa, e para isso está usando a programação. A programação e a computação ai são as ferramentas (atividade-meio) utilizadas para resolver o problema da empresa (atividade-fim).

Cursos em CCP são, em sua definição, cursos de atividade-fim. Você faz CCP para estudar a própria Computação e poder contribuir dentro da Computação. É claro que o conhecimento adquirido pode (e vai) te ajudar a desenvolver uma solução para uma empresa e utilizar a computação como atividade-meio, mas esse não é o intuito dos cursos.

Então, quando você estiver naquela aula de redes de computadores do seu curso de CCP, puto da vida por estar aprendendo o modelo de camadas ISO/OSI e não como fazer um webservice, não diga: – “que merda inútil da porra vtnc”, mas se pergunte: – “Será que eu realmente quero fazer um curso de CCP ou eu quero fazer um curso técnico em Java com webservices para eu ser mais tecnologicamente útil para minha empresa?”.

Sério, eu sei que Ciência[s] da[e] Computação é um nome imponente e parece reunir todo conhecimento computacional do mundo em 5 anos de aulas noturnas, mas, aí é que está: isso não é verdade para caso nenhum! Não é simplesmente o ~~seu~~ curso que é “ruim”, é que provavelmente todos os cursos são assim. As pessoas que cursam Biologia, saem da faculdade biólogos. As pessoas que cursam Medicina, saem da faculdade médicos (ou quase). Então porque você, que cursa CCP, acha que deveria sair da faculdade um programador e não um cientista da computação?

E isso tudo pode parecer ser uma péssima notícia para você que discorda de mim e está cursando CCP, mas há sempre uma boa notícia no final: em tese, você não precisa cursar CCP para trabalhar! Existem outros cursos “mais tecnológicos” de computação que definitivamente podem te ajudar a melhor se adaptar a tecnologia de sua preferência.

Na minha opinião, essa visão errada de um curso de CCP se dá ao fato de que a ciência é ~~LoKa~~ e todo mundo fala mal + paga 1 pal pra ela. Assim, acha-se que só um curso com ~~Ciência~~ no nome é bom (ou pelo menos é melhor), quando isso é um equívoco (essa visão também afeta as pseudo-ciências).

Enfim. Ainda há espaço para discussão. Eu poderia argumentar que as disciplinas de um curso de CCP são úteis independente da forma que você utiliza a computação (e eu vou no futuro); você poderia dizer que nem só de ciência vivem os cursos de CCP etc. mas esse não é o escopo desse post. Você pode dizer que saber a fundamentação científica não é importante; o que eu discordo, mas acredito no seu direito de escolher o que deve ser mais importante para sua qualificação profissional. O ponto é: se o seu curso de CCP não é útil para a sua função na sua empresa, talvez não seja o curso de CCP que é ruim, e sim você que está esperando a coisa errada do curso.

Francisco de Souza Junior

Cientista da computação que trabalha com sistemas embarcados.

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  • http://www.facebook.com/people/Caio-Alexandre-Sales/100000111797319 Caio Alexandre Sales

    Quando eu fiz CCP os meus companheiros de classe ficavam neste mimimi que deveriamos aprender tecnologias da “moda” e eu sempre dizia que o objetivo do curso não era este, mas ninguem me ouvia :(
    Parabéns pelo texto!!!!

    • Tulio Novinho

      cara de lindo
       

  • http://twitter.com/heitorpolidoro Heitor Luis Polidoro

    Eu ia discordar muito, até ler a última linha. O problema é a falta de informação, muitas vezes porque os cidadãos não procuram. Tem gente que procura fazer BCC porque manja muito de Word e Excel.. É o mesmo que a menininha que adora bixinhos fowfinhos e vai fazer veterinária, ai tem um treco na 1a aula de anatomia…

    • http://twitter.com/Bullshico Francisco de Souza Junior

      O que você ia discordar?

      Isso de falta informação é foda e aqui nem estou criticando as pessoas que entram sem saber o que esperar. Depois de estudar bastante é fácil saber o que encontrar, o problema é que antes de entrar em uma faculdade, você não tem o conhecimento necessário para escolher. Ai o cara vê o nome ~~Ciência~~ e acha que esse é o Curso Último da Computação.

      • Sousa

        Sou formado em matemática leciono na rede pública do Estado de São Paulo, e falo que não é fácil nos tempos atuais ser professor, ainda mais uma área (como é a educaçâo) que foi quase esquecida, vejo que é muito proveitosa este tipo de discussão, em 2012 pretendo começar a cursar CCP, vejo que a discussão ora levantada seja a mesma que utilizar uma calculadora, ou estudar a história do ábaco, os dois possuem a mesma finalidade realizar cálculo, o que difere é a sua aplicabilidade. Não podemos esperar que a Universidade seja nosso fim, pois ela é apenas o elo que une a matéria ao aluno e com persistencia vem um diploma. Vejo que é muito importante antes de começar qualquer área estudar primeiramente a grade curricular e como ela será abordada, pois se nela consta matéria X com abordagem A ou Y com abordagem A não podemos esperar matéria W.com abordagem B.

  • http://profiles.google.com/andreguimaster André Guimarães

    Vale ler: http://olhardigital.uol.com.br/negocios/digital_news/noticias/profissionais_reclamam_da_qualidade_das_faculdades_de_tecnologia_no_brasil

    ““O que os professores ensinam nas faculdades não faz sentido com as necessidades do mercado de tecnologia”, afirma Julio Carvalho, que atua como analista de segurança e infraestrutura de uma grande organização brasileira. Formado em um curso de tecnólogo em redes computacionais, ele conta que desistiu de um bacharelado em ciência da computação depois de se deparar com um conteúdo bastante distante da realidade do setor.”

    Eu sinto que a faculdade não foi o que eu esperava, me apliquei nas matérias q julguei importantes dentro da atividade que gostaria de exercer na época.

    PS: não fiz CCP.

    • http://twitter.com/Bullshico Francisco de Souza Junior

      O artigo é interessante mesmo. Eu tinha visto esse artigo ontem, inclusive ele que me inspirou a escrever esse texto.

      Eu não trabalho com infraestrutura, então não sei. Também não sei do curso dele, que as vezes foi ruim mesmo. Como eu disse, não estou aqui para defender todos os cursos e juntar todas as críticas em uma só. Eu só acho que, muitas vezes, muita gente faz críticas baseadas em concepções equivocada do curso que frequenta.

      Tem um detalhe também: o mercado de trabalho não necessariamente (e provavelmente não mesmo) sabe o que quer a longo prazo. Se fosse há alguns anos atrás, imagina todas as graduações em Computação se focando em formar apenas desenvolvedores de softwares para video-locadoras? Hoje estariamos estagnados, com profissionais bons em Delphi e SQL Server, que era a necessidade do mercado alguns anos atrás.

  • Zehzinho

    ai que fofofofofofo!

  • http://twitter.com/lucasarruda Lucas Arruda

    O fato é que as pessoas confundem um cientista da computação com programador. O curso tem esse nome não é à tôa. Mas tem muita gente que faz o curso pela qualidade. Como você vai ver teorias da computação, se “aprofundar” em vários assuntos, como este de redes que você citou, você terá uma base muito maior para entender como funciona um arquitetura de um webservice. É como aquele matemático que sabe resolver algoritmos melhor do que um cara da computação, pois ele tem uma base matemática muito melhor e apenas aprendeu como se computa a lógica no computador ao invés de fazer no papel (existe o curso de Matemática Computacional que foca nisso – e mais no algoritmo – teoria – que na programação – prática – em si).

    Agora, se o objetivo do cara é programar por si só – e obviamente temos que analisar se programar seria fazer um sistema pequeno, um site ou até um ERP – aí eu acho que talvez o ideal seria Sistemas da Informação ou até mesmo estudar e programar.

    Mas, um conselho: Embora a Universidade não seja a última bolacha do pacote e você possa aprender tudo sozinho, é muito mais difícil. Você não precisa se prender aos conceitos aprendidos na Universidade, mas quem entra já sabendo programar, se souber aproveitar, vai melhorar muito suas habilidades, diversificando conhecimentos, conhecendo mais matemática, arquitetura de computadores, padrões de projetos, engenharia de software, entre outros. Mas isso também depende, tanto da qualidade da Universidade quanto da dedicação do aluno.

    • http://twitter.com/Bullshico Francisco de Souza Junior

      Concordo plenamente! O que eu dizia é que tem gente que não pensa assim, o que eu discordo, mas a pessoa tem o direito de escolher a própria qualificação. O ponto é: se a pessoa não pensa assim, acha que conhecer teoria da computação não é útil, que o cálculo não serve para nada etc. não adianta querer mudar um curso que em sua definição é assim.

  • http://profiles.google.com/escovabr Gabriel Cavalcante

    Acho que sua análise está um pouco superficial. Eu fiz ciência da computação e por este motivo sei como funciona a confiabilidade do protocolo TCP/IP p. ex. A merda é que você pega um cara no mercado, formado nestes cursos “técnico-cológicos” que você citou e o sistema dele salva notas fiscais erradas, e ele vai justificar ao cliente que é a rede que está tendo interfência no tramite da nota fiscal entre a máquina cliente e o servidor.

    Esse é o grande problema dos cursos tecnológicos, falta a visão “como um todo”.

    Você não aprende CCP somente para contribuir em CCP, você faz CCP para aprenders os primórdios e os fundamentos de toda a computação. Além disso você estará apto “aprender” a programação em qualquer linguagem, pois você tem fundamentos lógicos e compreende os futuros gargalos em todos os recursos. Você conhece de otimização, e tem possibilidade de enxergar melhorias em processos já existentes..

    O mais importante, quem faz a faculdade é o aluno. Nada impede de que durante o período do curso você estude metodologias avançadas e implemente coisas da baixa da égua. Nada impede que você trabalhe durante o curso, tire certiticações, faça estágios, dê aulas, etc.

    Seu esforço irá te garantir, se você se esforçar poderá botar o pau na mesa na hora da entrevista e dizer: – Disso eu entendo.

    • http://twitter.com/Bullshico Francisco de Souza Junior

      Sinceramente, não vejo que os formados em cursos tecnológicos são mais propícios a cometerem erros grosseiros. Existem pessoas que nunca fizeram uma faculdade mas que são muito competentes nas áreas que atuam. As explicações pífias não são exclusividade dos não-formados ou formados em tecnólogos.

      Acho que a relação entre erros de projeto está mais relacionado às más contratações e distribuição incorreta de funções do que da área de formação.

      Cara… As pessoas tem um tempo finito e limitado para estudar. E o pior: elas não se motivam pelas mesmas coisas que nos motivam. Aprender sobre redes me foi útil e eu lembro de todo conteúdo da matéria. Mas nem todos da minha turma são assim. Por outro lado, tem muita gente que se lembra melhor das aulas de engenharia de software que eu (ergh!).

      Indo por sua analogia, se for pensar assim, saber sobre eletrônica e design de circuitos digitais te ajuda a saber porque determinada placa mãe não funciona; entender a arquitetura do processador ou microcontrolador que você está trabalhando e seu funcionamento; entender novas arquiteturas que eventualmente você pode trabalhar (CUDA, fluxo de dados…); lidar com sistemas embarcados. Te ajuda a você projetar seu hardware em um co-projeto de hardware reconfigurável, acopla-lo ao seu computador e assim otimizar o tempo de execução do seu projeto.

      Seria útil um programador PHP saber disso? Seria! Seria útil até para um médico que queira automatizar suas análises com um computador. Agora, qual a prioridade para ele saber disso? O que ele vai deixar de estudar para estudar isso? E ele vai ter que deixar de estudar algo para estudar isso, porque o tempo dele é finito.

      Eu não discordo que o que você disse é útil. Que os conhecimentos adquiridos na academia são úteis. O problema é que eles não são prioridades para todos. Assim como não é prioridade para os cursos de CCP aprender tecnologia da moda do mercado X.

      • http://profiles.google.com/escovabr Gabriel Cavalcante

        Por isso que eu disse quem faz a faculdade é o aluno. Não é o curso, ou a universidade que forma um bom profissional. Vai do interesse do cara. Se o cara do PHP precisa saber ou não, vai depender muito do projeto em que ele está envolvido. Se for um formulário coxa creio que não, mas vai saber. Acho que a possibilidade de termos um profissional mais completo está favorável aos alunos de CCP.

        Mas é aquilo, opinião é igual *pi*, cada um tem o seu hehe

        • http://twitter.com/Bullshico Francisco de Souza Junior

          Entendi. Eu prefiro ver por outro lado, imho. Eu concordo que esses aspectos que você citou de profissionais de CCP são importantes. Só não diria que um cara formado em CCP está mais próximo de ser completo que outros profissionais, pois acho que isso depende da função do cara na empresa…

  • http://www.facebook.com/lfgranja Luis Felipe Mesquita Granja

    Muito boa a opinião.

    De fato, é o que me faz olhar pro curso que faço agora (Sistemas para Internet), confrontar com o que eu queria (CCP) e dizer: “Tô onde eu queria desde o começo”. Ponto.

    • http://twitter.com/Bullshico Francisco de Souza Junior

      Pois é! Cada um tem suas prioridades. E nenhum curso é melhor ou pior que o outro; isso é intriga de bixo de faculdade. :P . Os cursos tem apenas escopos diferentes. Eu, que já queria seguir carreira acadêmica, preferi fazer CCP. Se tivesse feito CCP e fosse competir com você para procurar emprego como programador PHP, você certamente teria vantagem na disputa comigo.

      • tarantino

        pãozinho

  • Dilan Nery

    A um tempo atrás li esse artigo do Thiago Madeira[1] em que ele falava sobre as pessoas que ingressam no curso de Ciência da Computação sem saber o que esperar dele ou esperando algo completamente diferente, e quando se deparam com a “realidade”, criticam o curso sem antes cogitar a possibilidade de que o problema seja com eles e não com o curso.

    [1] – http://migre.me/4dnTw

    • http://twitter.com/Bullshico Francisco de Souza Junior

      Bacana o texto! A citação do Dijkstra é sempre muito oportuna!

      “Ciência da Computação está tão relacionada aos computadores quanto a Astronomia aos telescópios, Biologia aos microscópios, ou Química aos tubos de ensaio. A Ciência não estuda ferramentas. Ela estuda como nós as utilizamos, e o que descobrimos com elas.”

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  • Sandiego Trail

    Sou graduado em Ciencia da computaçao e pos graduado em engenharia de softwares… hoje a vejo que foi uma enorme perda de tempo , ja que qualquer um que sabe ligar um computador esta em par de igualdade no mercado de trabalho.
    Infelizmente outro fator que desanima e muito e o quesito salario… cada ano que passa cai mais ….. talvez pela falta de regulamentaçao e conselho como existe em curso como engenharia, medicina seja a causa desse mercado ….
    att